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Como em Narayama, voltamos a querer levar os velhos pra morrer na montanha?

Gisela Rao

19/04/2020 04h00

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Eu não tive uma adolescência com avós amorosos para todo lado, como nesses filmes americanos. Quem me dera! Meu dois avôs morreram jovens, a avó por parte de pai era distante e a outra avó tinha uma personalidade difícil, mas eu gostava de dormir na sua casa, às sextas-feiras. Lá, eu me deliciava com macarrão com molho de tomate e frango, musse de chocolate e os filmes bons que passavam tardão da noite.

Um desses filmes inesquecíveis chama-se "Balada de Narayama" (1984), do diretor Shohei Imamura. A obra retrata um pequeno vilarejo rural no interior do Japão. Naquela época, quando um idoso atingia 70 anos, ele deveria ser levado à montanha sagrada para morrer. Ou seja: velho era um fardo que ninguém queria. Filme antigo e triste pra diabo, mas que nunca pareceu tão atual como nos últimos meses.

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Desde que essa pandemia de coronavírus começou, já ouvi tanto absurdo que só podemos estar vivendo uma "Síndrome de Balada de Narayama". Ouvi gente pouco se importando com a vida dos idosos. Outros querendo isolá-los – como se já não fossem afastados e esquecidos. Alguns propondo camburão para pegar as pessoas acima de 60 que estiverem nas ruas e os mais radicais propondo um campo de concentração para levar os infectados, incluindo, claro, os mais velhos. Pois é, um horror!

A médica paliativista Ana Claudia Quintana disse uma coisa interessante outro dia em uma live: por causa da pandemia, estamos tratando pior nossos idosos. Estamos sendo mais autoritários, mandando mais, proibindo mais, obrigando mais, dando mais dura, tratando como crianças – tudo isso com a desculpa furada e infundada do "amor". Sim, estamos cada vez mais deixando de ouvir suas vontades, opiniões, sentimentos e, principalmente, sabedoria. O coronavírus está mesmo expondo o melhor e o pior de nós.

Não são os velhos que devemos levar para a montanha, como no filme de Shohei Imamura. É o nosso egoísmo, prepotência, arrogância, desrespeito. E que fiquem por lá morrendo, sem água e sem alimento. 

Obrigada por ter vindo aqui. Te espero nos comentários.

#EnvelhecerSemPhotoshop #EnvelhecerSemVergonha #VigilantesDaAutoEstima

Insta: @giselarao  Face: https://www.facebook.com/giselarao

Sobre a Autora

Gisela Rao é criadora e criatura de conteúdo, safra 64 – Ano do Dragão. Publicitária e escritora, é “porta-bandeira” dos temas sexo e autoestima, trazendo para a comissão de frente algumas das grandes pedras-no-scarpin femininas. Teve os programetes “Repórter Rao” e “A Monja e Emotiva” (UOL) e foi colaboradora das revistas e jornais: Folha de S.Paulo, Jornal da MTV, Época, Marie Claire, SPFW Journal, Isto É Gente, UMA, VIP, Bons Fluidos, Viagem & Turismo e TOP Destinos. É autora dos livros “Sex Shop”, “Tchau, Nestor” e ‘Não Comi, Não Rezei, mas Me Amei”. Opa! Não desligue ainda, tem mais: foi fundadora do Movimento Vigilantes da AutoEstima e uma das idealizadoras da ONG Estou Refugiado.

Sobre o Blog

A ideia desse blog é trazer um “Ufa!” para os perrengues da “classe” 50+: corpo, preconceitos, paúras, relacionamentos, medo de morrer, sexo... num tom divertido, autobiográfico e gente-como-a-gente. #EnvelhecerSemPhotoshop